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Segunda-feira, 14 de Maio de 2018

Mãe policial que reagiu a um assalto cumpriu seu dever; exploração política do caso, feita por França, é detestável e constitui um erro grave

A PM Kátia recebe flores do governador Márcio Franca; ao lado do político, o secretário de Segurança, Mágino Alves (Divulgação)

RedeTV

Vamos ao “é da coisa”.

E uma coisa é a atitude da policial militar e mãe Kátia da Silva Sastre, que, na manhã de sábado, reagiu a um assalto na porta de uma escola no Jardim dos Ipês, em Suzano, matando o ladrão. Outra coisa, muito distinta, é a atitude do governador Mário Franca (PSB), candidato à reeleição, que decidiu lhe prestar uma homenagem pública. Num caso, temos uma policial atuando, apesar dos riscos, para proteger um grupo de mães e crianças, incluindo a sua própria filha, de sete anos. Tratou-se também de legítima defesa. No outro, com a devida vênia, misturam-se populismo e irresponsabilidade.

A circunstância é conhecida, e o vídeo já foi visto por milhões de pessoas.

No sábado de manhã, na homenagem que a escola fazia às mães, Elivelton Neves Moreira, 21, decidiu render com uma arma um grupo de pessoas que estava em frente ao estabelecimento. Sabe-se lá o que tinha em mente. Um sujeito disposto a apontar uma arma contra um grupo de mulheres e crianças pode estar disposto a qualquer coisa. Submeti o vídeo a policiais que conheço. Todos disseram que, dada a situação de risco, Kátia agiu com um padrão aceitável de segurança. Estava a coisa de um metro do bandido. Acertou-lhe um tiro no peito e outro na perna.

Não há um só especialista em segurança que recomende que se reaja a um assalto em circunstâncias semelhantes. Kátia, no entanto, é treinada para situações de risco e tinha o fator surpresa a seu favor. O rapaz certamente não esperava que daquele grupo, em tese de baixo risco para ele, viesse a reação. E veio. Letal e certeira. Pessoas sem treinamento, ainda que armadas, não devem seguir o exemplo de Kátia.

Somos humanos, e nada do que é humano nos é estranho, como escreveu Terêncio. Há um morto. A questão tem seu aspecto dramático. Mas duvido que haja quem não se solidarize com a policial. É como se o caçador vivesse o seu dia de caça. O ato covarde teve uma resposta de pronto. Cuidado, no entanto! Se você sente prazer ao ver o ladrão agonizando… Aí pode ser coisa de outra natureza, que não senso de justiça.

Assim, nada tenho a opor à ação de Kátia. Mesmo sem uniforme, mesmo sem estar trabalhando, foi bem-sucedida no cumprimento do dever. E é óbvio que também correu risco. Há algo adicional a dizer: é provável que o assaltante fosse tomar pertences dos presentes, vasculhar as respectivas bolsas das mulheres. A arma de Kátia e a eventual identificação — uma policial — poderiam ter lhe custado a vida se não reagisse.

Assim, nada a opor à sua atuação. Dou-lhe os parabéns. Não porque matou um bandido. Mas porque cumpriu seu dever e protegeu a segurança de outras pessoas.

Agora o governador
Infelizmente, não dá para dizer o mesmo a Márcio França. Resolveu homenagear a policial, dando-lhe flores e posando para fotos. Disse-lhe o governador:
“A gente não pode deixar de enaltecer toda a técnica que você usou nesse episódio, a maneira rápida que você agiu e, ao mesmo tempo, a coragem que você teve, porque poderia simplesmente se omitir naquela situação, pois estava de folga, à paisana”.

Kátia, que é cabo da PM, respondeu:
“Agi para defender as mães, as crianças, a minha própria vida e a da minha filha. É gratificante por ter salvado vidas. A gente não sabe como seria o decorrer disso. É para isso que estamos nessa profissão, para defender as vidas, e foi o que eu fiz.”

Tudo certo com a fala dela. E até com a dele. Mas o governador poderia ter lhe mandado uma mensagem sem a publicidade eleitoreira que decidiu dar ao caso. Uma ação em que morre uma pessoa, mesmo um bandido, não tem de ser tratada pelo Estado como se fosse uma efeméride, como se fosse motivo de festa. Policiais matam e morrem em troca de tiros com bandidos todos os dias, e o governador não sai por aí distribuindo flores. Esse caso, no entanto, já chega empacotado para a exploração eleitoreira. E França não se fez de rogado.

Erro grotesco
Há um outro erro grotesco nisso tudo. A identidade de Kátia não tinha sido revelada pelo vídeo. E assim deveria ter continuado. É grande o número de policiais que são assassinados simplesmente por serem policiais. Ainda que a exposição da policial, com a revelação de sua identidade, pareça contar com a sua concordância, é claro que se trata de uma decisão estúpida. Parece-me evidente que ela está sendo exposta a um risco desnecessário.

Certa vez, debatendo com um candidato a político, observei — e não consta que tenha entendido esta e outras questões relevantes — que os fatos têm uma moralidade em si e que, postos em trânsito, na relação com outros fatos, podem assumir um caráter muito diverso, até contrário a seu significado quando tomado de forma isolada. Vale dizer: determinadas escolhas são ruins, muitas vezes, mais em razão das paixões que mobilizam do que em função de sua própria natureza.

A mãe policial que reage a um assalto e é bem-sucedida merece o nosso aplauso. Quando o governador arma uma cena que tem como moral da história o “bandido bom é bandido morto”, bem, aí já há um flerte com as portas do inferno. Porque essa mensagem, se enviada à tropa, cria um problema gigantesco para o próprio comando da Polícia Militar, como me disse um oficial, cujo nome não declinarei aqui, é evidente. Até porque a experiência indica que essa mensagem se conta, depois, em corpos. Inclusive de policiais.

Kátia fez o que tinha de fazer. França fez o que não pode ser feito.

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