Notícias da Região | Fronteira
Quarta-feira, 12 de Agosto de 2026
Associação paraguaia alerta para crise e culpa entrada de porcos brasileiros pelo contrabando
Produtores vizinhos apontam concorrência desleal na fronteira
O setor suinícola paraguaio enfrenta uma forte pressão sobre suas margens de lucro devido à queda drástica dos preços e à entrada irregular de animais e carne bovina e suína oriundos do Brasil. Roberto Bento, vice-presidente da Associação Paraguaia de Produtores de Suínos (APPC), apontou que o valor pago ao produtor despencou de cerca de G. 11.500 (R$ 7,66) para menos de G. 8.000 (R$ 5,33) por quilo desde janeiro deste ano.
A denúncia ocorre em um momento de franca expansão da suinocultura no país vizinho. O Paraguai saltou de uma produção de 13.000 toneladas em 2007 para aproximadamente 90.000 toneladas projetadas em 2025, atingindo a marca de quase um milhão de animais abatidos no último ano.
No entanto, as lideranças do setor advertem que o contrabando vindo do Brasil gera uma concorrência desleal que os produtores formais não conseguem suportar. A queda de até 30% nos preços pagos pelos frigoríficos já havia sido alertada em abril, refutando a tese de que a baixa se devia apenas a uma suposta superoferta no mercado interno.
Custos de produção espremem o produtor
De acordo com as estimativas da APPC, o custo para produzir um suíno terminado de forma eficiente varia entre G. 7.500 (R$ 5,00) e G. 8.500 (R$ 5,66) por quilo. "Isso deixa o produtor praticamente sem rentabilidade nenhuma", lamentou Bento.
Um animal atinge o peso ideal de abate, entre 110 e 115 quilos, em cerca de seis meses. O custo total de produção de um único suíno terminado gira entre G. 750.000 (R$ 500,00) e G. 800.000 (R$ 533,33). Com a queda no preço de venda, a margem para cobrir gastos com alimentação, transporte, funcionários, sanidade e impostos torna-se cada vez mais insustentável.
O peso do produto brasileiro
O principal alvo das reclamações é a carne que cruza a fronteira ilegalmente. O dirigente da APPC estima que o preço do suíno no Brasil esteja na faixa de G. 5.000 (R$ 3,33) a G. 6.000 (R$ 4,00) o quilo. Essa grande diferença em relação ao custo de produção paraguaio cria um forte incentivo para o contrabando.
Produtos sem os devidos recolhimentos tributários e requisitos sanitários são comercializados a preços muito inferiores no mercado informal.
A luz de alerta do setor acendeu de vez em 4 de junho de 2026, quando uma operação conjunta da Polícia e do Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Animal (Senacsa) flagrou um caminhão transportando 40 suínos sem identificação sanitária. Os animais não tinham as tatuagens obrigatórias nas orelhas e o veículo não possuía habilitação. Para o setor, essa é apenas a ponta do iceberg: a APPC estima que, para cada caminhão apreendido, outros 10 cruzam a fronteira sem serem detectados.
Risco sanitário e exportações em xeque
Além da concorrência financeira, o perigo biológico é uma preocupação máxima. Animais sem rastreabilidade podem reintroduzir doenças no rebanho nacional. "Sendo de contrabando, essa rastreabilidade já se esfuma a zero", destacou Bento.
Esse risco ganha proporções maiores porque o Paraguai vive um bom momento nas exportações. No primeiro semestre de 2026, o país exportou 8.721 toneladas de carne suína (US$ 25,54 milhões), um crescimento de 11,36% em volume. Em julho deste ano, o país inclusive concretizou seu primeiro envio de 27 toneladas para as Filipinas.
Distorção de preços até a mesa do consumidor
Outra queixa recorrente é a discrepância entre o que o produtor recebe e o que o consumidor paga nos supermercados.
Valor ideal para o produtor: Cerca de G. 10.000 (R$ 6,66) por quilo.
Valor recebido atualmente: Perto de G. 9.000 (R$ 6,00) ou menos.
Preço para o consumidor final: Alguns cortes chegam a custar entre G. 22.000 (R$ 14,66) e G. 25.000 (R$ 16,66).
O setor pede intervenção dos órgãos de defesa do consumidor e mais rigor nas fiscalizações da fronteira por parte das autoridades aduaneiras e sanitárias, reforçando o uso de tecnologias de inspeção.
A crise atinge não apenas o produtor, mas também a arrecadação do Estado. Além disso, pequenos produtores — que enfrentam barreiras logísticas para vender diretamente aos supermercados e a programas governamentais — são os mais ameaçados por esse cenário de custos altos e invasão de mercadorias pela fronteira.
(Nota: As conversões para o Real foram estimadas com base na cotação média de G. 1.500 para cada R$ 1,00).
Fonte: Antonio Mendonça/ Catve/ ABC Collor

















