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Terça-feira, 18 de Agosto de 2026
Palotina: Juro ainda aperta margens e limita projetos estruturantes no campo
Apesar de redução nas taxas, Plano Safra é insuficiente diante da queda de preços, aumento de custos e endividamento
A redução dos juros, que acompanhou a conjuntura nacional de queda da Selic, e a ampliação de limites para algumas linhas de financiamento foram os pontos mais positivos do Plano Safra 2026/27 para cooperativas agropecuárias. A avaliação é do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras). Líderes do setor, no entanto, afirmam que as medidas foram insuficientes diante da queda de preços dos grãos, do aumento de custos e do endividamento dos produtores causado por problemas climáticos e taxas de juros acima de dois dígitos.
Rodolfo Jordão, coordenador do ramo agropecuário do Sistema OCB, destaca que a principal conquista do setor é a existência da política de crédito rural, que recebe propostas da entidade para sua formulação há 26 anos. Jordão avalia como benéfica a redução das taxas de juros nas linhas Prodecoop e Procap-Agro - que caíram de 13,5% para 12% ao ano -, bem como o recuo de 14% para 12,5% no custo de recursos controlados destinados às cooperativas.
“O formulador da política, diante da conjuntura econômica atual, tinha que decidir se reduziria a taxa de juros, aumentaria o volume de recursos ou ampliaria os limites. Houve redução de juros, mas, por outro lado, faltaram três pontos principais: mais volume de recursos, enquadramento das cooperativas familiares para construir agroindústrias e armazenagem e ajuste no enquadramento de renda dos pequenos e médios produtores”, diz Jordão.
A entidade nacional, que agrega 1.254 cooperativas agropecuárias com um faturamento em 2025 de R$ 487,3 bilhões (aumento de 11,2% em relação a 2024), pediu recursos de R$ 674 bilhões para o Plano Safra, mas o governo anunciou R$ 622,4 bilhões. Segundo Jordão, as cooperativas do setor respondem por mais de 50% da produção de grãos, 75% do trigo, mais de 50% do café, quase metade do arroz, além de ter presença forte nas proteínas, na horticultura e na fruticultura.
Marcelo Riedi, diretor administrativo-financeiro da paranaense C.Vale - uma das maiores cooperativas agropecuárias do país -, reconhece os avanços, mas alerta que, diante das margens cada vez mais espremidas do setor, juros de 12% a 12,5% ao ano ainda inviabilizam muitos projetos estruturantes. “E nas linhas mais demandadas pelo cooperativismo, como o PCA, Prodecoop e Procap-Agro, os limites seguem baixos diante da necessidade real de investimento, e nem sempre o recurso está disponível no momento em que a cooperativa e o produtor precisam dele.”
Na visão de Riedi, faltaram volume, custo e previsibilidade. Além disso, afirmou, o ponto mais sensível para as cooperativas foi o recuo de cerca de 28% dos recursos do Prodecoop e PCA, justamente as linhas mais acessadas, que passaram de R$ 8,2 bilhões para R$ 5,9 bilhões. “Faltou também resposta estrutural ao seguro rural. O pleito do setor era de R$ 8,5 bilhões para o biênio e uma equalização mais robusta. Sem ela, a demanda migra para recursos livres, mais caros, e uma taxa de 12,5% ao ano segue pesada para a margem de qualquer atividade agrícola.”
Riedi afirma que a C.Vale oferece alternativas ao crédito rural governamental, como o financiamento de insumos para as safras de verão e inverno, operações de barter e o fomento à proteína animal. O executivo lembra ainda que, em 2025, a entidade tornou-se a cooperativa-âncora do FIDC Agro Paraná - o pioneiro do setor criado por um governo estadual - ao assumir a maior cota individual no aporte inicial para validar o modelo.
A cooperativa fornece assistência (...), mas não tem funding para financiar agricultor”
— Paulo Pires
Paulo Pires, vice-presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (Fecoagro-RS) e presidente da Coopatrigo, afirma que, sem enfrentar diretamente a questão do endividamento, o Plano Safra é inócuo para os gaúchos, que enfrentaram nos últimos anos cinco safras seguidas com problemas climáticos de seca e enchente. “Não existe agricultura no mundo que pague uma taxa de juros de dois dígitos como a nossa. Com essa taxa, a queda de rentabilidade no campo e o endividamento, fica inviável o produtor contrair mais financiamento”, argumenta.
Pires lembra que o atendimento de crédito que existia nas cooperativas visava dar o complemento para o produtor plantar, mas, diante dos juros e da restrição de crédito, isso se inverteu muito e o cenário atual é difícil tanto para as cooperativas como para os associados. “A cooperativa fornece assistência técnica, estrutura de armazenamento, agroindústria, capacitação, mas não tem funding para financiar o agricultor.”
Caio Vianna, presidente da Cotrijuc, que tem 5.500 associados na região central do Rio Grande do Sul e nas cidades da fronteira com o Uruguai, diz que o Plano Safra “é um remédio que não atende a necessidade do doente”. A Cotrijuc, diz ele, não consegue liberar crédito ao associado que esteja endividado. “Se eu repassar crédito para quem não tem condição de pagar, eu quebro a cooperativa”, ressalta.
Fernando Degobbi, presidente da Coopercitrus - que reúne mais de 39 mil associados em São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso -, afirma que a entidade vem reforçando a assistência ao produtor no atual cenário. O objetivo é impulsionar a produtividade por meio de tecnologias como agricultura de precisão, drones e irrigação. Paralelamente, a cooperativa orienta a gestão de custos, viabilizando operações de barter e buscando funding subsidiado, a exemplo do programa Irriga+, com taxa média de 7% ao ano para investimentos.
“Grande parte dos nossos cooperados tem mais de uma cultura e isso minimiza o risco do preço das commodities, ajudando a passar momentos difíceis de elevação da taxa de juros”, conta Degobbi.

















